quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Lembrança

Se é mar
Desagua
Se é pena
Voa

Se eu rimar
Ama
Se amar
Perdoa

Se quiser
Fica
Mas se não
Rua

Se cair
Levanta
Se eu rir
Faz de conta

Que eu sou
Crescido
Faz de mim
Lembrança

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Telha (para Fernanda)

Sempre que um tesouro se apanha
É preciso mais que uma pá
Pois a mesma mão que o desenterra
É aquela que há de lapidar

Traz a eternidade e põe a mesa
Que hoje o tempo voa sem pudor
Senta e não espera ter de volta
A mesma mente vã que aqui chegou
 
A chuva cai na telha lá fora
Mas o violão não pode se encostar
A vida é bem mais do que o meu tempo me mostra
Mas tempo requer pra ela se encontrar
Se encontrar

Hoje a graça vem e se renova
O meu coração recebe a paz
Paz que em Cristo tive por herança
Abri a minha alma pra procurar

Feitos alguns retratos dos meus dias
O tempo em preto e branco os deixará
Fica na memória a alegria
Que as pequenas coisas vão deixar

A resposta vem no coração
Paz que guia ao que nos é maior (melhor)
Ao seu fim

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Viver

Sei que, pra mudar,
é preciso coragem e fé
Mas sei também
que alguém tem que começar

Ai, meu Deus, que será
que o homem precisa ter
pra conhecer
o ingênuo tesouro de amar?

Simples é melhor
do que muito sem aprender
a ser menor
e viver só pra se aprovar

Sofre quem não tem
mas sofre quem tem também
É o olhar
que define quem sabe lidar

E quem sabe o que é sofrer
Não esconde as marcas que tem
Pois quando amanhecer
poderá dividir com alguém

E, quem sabe um dia,
encontrar amor
E a alegria
em ver brotar uma flor

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O impulso da vida


Dia desses ouvi numa conversa entre amigos a respeito de uma filosofia xamânica sobre o sofrimento. Dizem, então, os tais sábios que quando perdemos alguém importante em nossas vidas – seja pelo falecimento ou pelo simples afastamento inevitável – perdemos um pedaço da nossa alma. É como se, às vezes, fosse tão impossível superar certas perdas, dada a ligação que temos com as pessoas que um dia amamos intensamente, que quando elas se vão de vez, um pedaço de nós vai junto, para nunca mais voltar.
Fiquei matutando esse pensamento durante um tempo. Fiz algumas conexões, como, por exemplo, com a ideia de saudade. Saudade é uma palavra que, até onde me consta, só existe na língua portuguesa. Como diz um amigo meu, é um sentimento essencialmente lusitano, já que é uma palavra de conotação positiva (“fulano, estou com saudades!”) para expressar um sentimento negativo, de perda. Isso faz dela a palavra de que mais gosto, ainda que odeie o que ela me faz sentir.
Mas a verdade é que não me conformei com a ideia de perda constante. Não me é natural, mas estava sendo otimista! “Não pode ser que as pessoas nunca superem perdas, e que isso seja inegociável com o acaso”.
E, na verdade, acredito não ser tão assim mesmo. Por um lado, a filosofia dos antigos tem um sentido, na medida em que há certas perdas que serão lembradas com um saudosismo e até mesmo uma tristeza extras por toda a vida. Por outro, de fato, nós perdemos, sofremos, nos angustiamos não só por pessoas, mas por crises existenciais fortes mas, no final das contas, por mais que tenhamos cicatrizes pelo resto da vida, é possível viver de novo. E isso apenas por uma razão: o impulso da vida.
Pense numa pessoa que, numa praia deserta, vai um pouco adiante do que deveria no seu banho de mar e se vê numa situação de iminente afogamento. O desespero toma conta dela, as braçadas são fortes e constantes, a respiração é cada vez mais difícil, mas depois de muito esforço, chega à praia (com cãibras e dores musculares insuportáveis). Viva.
O que é o desespero? Um sentimento ruim? Pelo contrário! Nesse caso, seria a vontade ensandecida de viver quando a vida propõe o contrário. O desespero é uma reação natural da vontade de viver. Uma pessoa na situação descrita pode nuca ter encontrado um momento de conforto durante seu auto-salvamento. Pode nunca ter voltado à tranquilidade do banho, mas sobreviveu.
Nossa alma pode ser constantemente inquieta pela perda de pessoas que amamos, e isso pode incomodar até o resto de nossas vidas. Nesse sentido, há uma certa razão nos xamãs. Mas é certo também que há vezes que, se não superamos uma perda racionalmente, é porque precisamos passar por cima dela, apenas pelo impulso de continuar vivendo. A falta estará sempre lá. Se superamos, vivemos. Mas, se não superamos, vivemos. E o fato de viver "apesar dos pesares", e de achar contentamento em outros relacionamentos, e sentido na vida, já é a superação em si mesma.
Se perder uma parte da alma é possível, como é possível que a história do afogamento tenha um final mais trágico, o impulso da vida faz com que esse final não seja inevitável. E viver é exatamente ter a felicidade de saber que, mesmo nas angústias, sofrer eternamente não é inevitável, ainda que, às vezes, o contrário seja extremamente difícil.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Sempre


Sempre que eu penso em fugir
lembro que ouvi tua voz
me chamando pelo nome

O teu amor não é como o que
eu conheci convivendo
no meio dos homens

Homens como eu

Renasci quando enxerguei
os meus pecados na cruz
Oh! Que graça veio a mim
que não mereço tua compaixão

Vil pecador me acheguei a ti
Sem um tostão pra te dar,
te ofereci minha vida

Vã ilusão é pensar que fui
eu que te achei, se em tuas mãos
minha alma sempre esteve

E sempre estará



quinta-feira, 26 de abril de 2012

Cotas por um pardo.

Hoje, o Supremo Tribunal Federal julgou constitucional o sistema de ações afirmativas que institui cotas para pessoas negras em universidades da rede pública.

Bom, o tema é sensível, as opiniões de ambos os lados são fortes - seja sob o aspecto jurídico, ou sob o aspecto sociológio, histórico e antropológico - e há sangue nos olhos de todo mundo (especialmente do índio Araju Sepete Guarani).

Independente de ser a favor ou contra, acho que cabe uma reflexão de todos nós sobre o teor desse debate.

Há tempos atrás, na minha época de vestibular, eu era sumariamente contra as cotas. Aquilo, para mim, era um absurdo, um desserviço à sociedade, um autoritarismo enorme, uma injustiça ~ comigo ~ com os negros, que são plenamente capazes de ingressar em uma universidade pública!

No entanto, li há alguns meses um texto do William Douglas, juiz federal na cidade de Niterói, mais conhecido por palestras motivacionais à respeito de como passar em concursos, mas não por isso menos qualificado ou menos consciente da realidade em que vivemos.

Resumidamente, o William Douglas, assim como eu, era contra cotas raciais, mas, através de sua experiência dando palestras em um pré-vestibular voltado para adolescentes negros, se deparou com uma realidade: "se ser pobre é um problema, ser pobre e negro é um problema maior ainda".


Ou seja, em que pese todas as conquistas da democracia instituida com a Constituição em 1988 e todos os direitos fundamentais nela consubstanciados, ainda assim, na experiência do magistrado, existem profundas diferenças, que o fizeram mudar de ideia, para passar a apoiar as ações afirmativas. E, sejamos francos: não precisa dar aula em um vestibular destinado a meninos e meninas negros para saber que até hoje há uma identificação entre os binômios "classe média/alta-branco" e "pobre-preto". Isso não é uma questão de ideologia, de empirismo. Não precisa nenhum esforço mental muito grande para se chegar a essa conclusão sobre a REALIDADE. Claro que a realidade comporta exceções, mas não se pode enxergar o mundo por elas, principalmente quando as exceções é que são para o bem.

O que quero dizer com isso não é que eu passei, assim como o William Douglas, a ser a favor das cotas. Quero dizer que essa discussão não pode ser baseada numa dialética do "a favor X contra". Essa discussão vai muito mais além do que argumentos, do que políticas ~ eleitoreiras ~ públicas ou qualquer outro critério cujo centro não seja privilegiar a vida das pessoas. Todo brasileiro, branco, pardo, índio, preto, gay, heterossexual, crente, ateu, tem direito de buscar a sua felicidade e de ter condições de igualdade para escolher o caminho que quiser para o seu futuro. E a realidade é que muitos brasileiros, brancos e negros, mas principalmente negros, não têm essa escolha. Para esses, resta a possibilidade de viverem suas vidas fazendo o papel que a sociedade deu a eles (afinal, quem vai ser o servente, a doméstica, o gari, não é?) ou, ao contrário, fazerem de suas vidas quase que uma lenda de um herói grego, que desbravou mundos e sub-mundos para "vencer".

E, seja lá o que for vencer na vida, todos deveriam ter a mesma oportunidade para isso.

Não sei ainda no que eu acredito a esse respeito, só sei que, a favor ou contra, importa muito menos a qualidade da minha argumentação, e muito mais a destinação dela.

Diego

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Arrependimentos

"Eu não tenho arrependimentos".

Recorrentemente eu ouço isso. Talvez até você, que está lendo isso despretenciosamente, possa ser uma daquelas pessoas que carrega esse lema.

Geralmente eu ouço isso naquelas entrevistas no melhor estilo "de frente com gabi', de gente famosa. E - caramba! - os famosos não se arrependem nunca!

Sinceramente, não consigo conceber a vida sem arrependimentos. Arrependimento significa mudar a direção de algo que se percebeu equivocado. Pode não ser a melhor definição, mas não é muito diferente do que isso. Talvez o que as pessoas querem dizer quando afirmam não se arrepender de nada é que não sentem remorso, pois não adianta nada ficar trazendo à tona erros do passado, como uma forma de auto-punição contínua.

Mas daí a se dizer "eu não me arrependo"...

Acredito piamente que esse lema de vida - com a plena consciência do que é o arrependimento - é uma das maiores burrices que o ser humano pode fazer consigo mesmo. O arrependimento é a medida do amor, da compaixão, da humildade, principalmente da humildade.

Realmente tenho poucos remorsos, e tento me livrar deles todos os dias. Mas tenho muitos arrependimentos. Certamente muito menos do que eu deveria ter.  Mas os tenho, graças a Deus.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Catarses

No significado literal, a palavra que entitula este texto significa "purgação", "purificação" ou "evacuação".

A origem das "catarses", até onde me consta, vem da filosofia grega, com Aristóteles. Como eu não sou metido a filósofo, apesar de gostar do assunto, vou deixar aqui um pequeno trecho do que você pode encontrar no Wikipedia à respeito (mais honesto do que isso, impossível).

Segundo Aristóteles, a catarse refere-se à purificação das almas por meio de uma descarga emocional provocada por um drama.
Ou ainda:

Ou seja, é preciso que o herói trágico passe da "Felicidade" para a "Infelicidade" por alguma desmedida sua para atingir a catarse
Em termos bem práticos, catarse acontece quando a gente se depara com alguma situação que gera em nós uma identificação tamanha que faz com que haja um sentimento de liberdade, um ânimo diferente.

Ou, para a psicilogia,"catarse é o experimentar da liberdade em relação a alguma situação opressora, tanto as psicológicas quanto as cotidianas, através de uma resolução que se apresente de forma eficaz o suficiente para que tal ocorra".

E isso acontece todos os dias, faz parte do cotidiano das pessoas. Ouvir uma música e se identificar com o que está sendo cantado; assistir um filme e se "ver" num ou noutro personagem; enfim, se identificar com algo que atenue a dor de um drama, que ajude a se erguer numa situação difícil. E é bom, muito bom.

O problema todo dessa morfina psicológica é que ela não resolve os nossos problemas, não aplaca por inteiro os nossos vícios, muito menos nos livra de nós mesmos. A exceção fica por conta de uma das catarses: a que encontramos na Cruz.

Essa sim é a solução para todos os nossos vícios, porque não gera apenas um efeito efêmero na nossa dor, ou na nossa culpa. Até porque Deus não me parece muito preocupado com a intensidade da nossa culpa, mas com a eficácia do nosso arrependimento. E a catarse da cruz traz mais do que um alívio, traz a liberdade de saber que somos amados, nos fazendo amar verdadeiramente.

Fiquemos com a cruz. Ela é a melhor das catarses.

Um abraço,

Diego





segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Fraudes

É isso que somos por nós mesmos: fraudes.

Levantamos as nossas mãos, dobramos os nossos joelhos diante de Deus, mas também fazemos isso em relação às nossas vontades humanas. E fazemos isso reiteradamente. A grande sacada da “santidade” proposta pela religião dos fariseus é que essa condição nunca pode estar exposta. Mas isso não é um dogma, é claro. É velado. E quem consegue manter o segredo, geralmente, está à frente dos rebanhos e é quem tem “moral” para falar alguma coisa.

O problema é quando, mesmo você conseguindo esconder a sua condição dos outros, não consegue mais esconder de você mesmo. Mesmo quando você consegue construir uma imagem de um rapaz de bem para os outros, não consegue mais suportar a própria e verdadeira imagem. Aí a coisa começa a ficar séria.

E a tendência é a vergonha e o afastamento de Deus. E, diga-se de passagem, se você já chegou ao ponto de não perdoar a sua própria condição, já passou há muito tempo do ponto em que perdoaria a do outro sem um julgamento implacável. E, por essa lógica, significa que Deus também não é capaz de perdoar a sua condição, muito menos de mudar o seu coração, trazendo a ele arrependimento. Como se fôssemos - nós, mortais - parâmetro para Deus em algum momento...

E a verdade é essa mesmo. Merecemos a morte, o inferno e o afastamento de Deus.
O que eu quero propor aqui não é que deixemos de reconhecer que somos as fraudes que somos. Porque todos pecamos, e carecemos da graça. A proposta desse pensamento é que, por maior que seja a vergonha, por maior que seja o afastamento e a reprovação imposta, desistir de se apegar a Deus e de se entristecer pelos próprios pecados nunca vai trazer paz ao coração.

Martinho Lutero disse certa vez: “peca com coragem, mas crê com coragem maior ainda e alegra-te em Cristo”. Isso não quer dizer que devemos nos conformar com o fato de sermos fraudes sem querer uma mudança. Quer dizer que, mesmo ao cair, Cristo nos encoraja a levantar. Quer dizer que devemos chegar confiadamente – ou “corajosamente” - junto ao trono da graça, para recebermos misericórdia. Quer dizer que não podemos deixar de nos alegrar em Cristo pela salvação a nós dada como dom. Quer dizer que nada pode nos separar do amor de Deus, revelado em Cristo, e que mesmo quando fraudamos a nossa inocência, Deus é capaz de restaurar a nossa essência se o nosso arrependimento for verdadeiro. Quer dizer, sim, que devemos ter como muito caro o seu sacrifício, não o banalizando. Quer dizer que Deus nos ama incondicionalmente, apesar de nós. E é para a nossa alegria.

Voltemos, então, ao primeiro amor.

Diego

segunda-feira, 13 de junho de 2011

A graça e minhas medalhas

Eu sei, faz tempo que não escrevo nada.

Na verdade, faz tempo que não encontrava motivação pra escrever, seja aqui ou no meu caderno de composições (que, por sinal, ressucitou também).

Mas ultimamente eu tenho me deparado com uma das principais experiências da minha vida cristã: a Graça. "Cristo veio ao mundo para reconciliar o homem com Deus e restaurar seu relacionamento com Ele mediante morte, e morte de cruz. E tudo isso nos foi dado sem que fizessemos nada. Não há merecimento nenhum, ou honra alguma a ser dada a nós. O mérito e a iniciativa são divinas, pela graça." Essa mensagem é basilar, é o primordial para se entender o Evangelho.


Mesmo sabendo disso, o que eu quero dizer é que ela é algo que um dia todo o homem precisa experimentar: a graça em seu coração, para além da compreensão simplesmente racional. Não que compreender isso não seja suficiente, mas a experiência de se ver como pecador é igualmente necessária.

E foi essa experiência que me fez chegar até aqui. Ver, na minha vida, que de fato não há justiça própria nenhuma, deparar-me com a verdade imunda da minha natureza, que sempre esteve ali, mas eu preferia deixar "debaixo do tapete". E a gente vai levando... Vai vivendo dia após dia numa perigosa mania de achar que esta tudo bem, que somos bons.

Mas, de fato, não há nada escondido que não venha a ser revelado, conforme vemos em Efésios 5:13


"Mas todas as coisas, quando reprovadas pela luz, se tornam manifestas;
porque tudo que se manifesta é luz"

E, graças a Deus, eu pude me deparar com essa realidade, a que Paulo também se refere em Romanos 7. Desventurado homem que sou! Quem me livrará da minha natureza inclinada à distância de Deus? (adaptação minha).

E eis que me deparo em Hebreus 4:15-16 com aquilo que foi o refresco da minha alma.


"Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas
fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, a nossa semelhança, mas
sem pecado.
Acheguemo-nos, portanto, confiadamente,
junto ao trono da graça, afim de recebermos misericórdia e acharmos graça para
socorro em ocasião oportuna"
Que constatação maravilhosa! Cristo me entende, sabe das minhas fraquezas (ou, como diria Davi, no salmo 103, conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó). Eu precisava ter essa experiência, e estou tendo. Precisava entender a graça mais do que com minha compreensão racional. Precisava me ver como pecador. Precisava enxergar a minha verdade como homem, para entender a transformação que a Verdade trás.

"Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." Tomo a liberdade de dizer que a verdade que temos que conhecer é composta de duas faces. A primeira é a nossa verdade, a nossa condição de seres humanos falhos. A segunda é a verdade de que Cristo veio ao mundo para mim, homem falho, e morreu pelos meus pecados. Essa verdade, completa, complexa, é que liberta. E posso dizer, com alegria, que fui liberto de mim, que não ostento nenhuma medalha de auto-justiça, que mesmo as que tenho não tem mais valor algum.

Porque a única medalha que pode honrar um homem é aquela conquistada no calvário, a preço de sangue.

Com amor,

Diego